segunda-feira

SALIVAR O EXCESSO

Há cabelos no ralo.
Do piso assimétrico que anda,
Com os dedos encavalados no tempo.
Sobre a  frieza da noite que agora se faz manta.

Mansa...
Dobrada na estriagem da garganta,
A dança dos ruídos que enverga,
E do sopro que planta.

Os chocalhos do grito,
Estremecido no pulsação do que invoco,
E do que toco.

Na alquimia do que beijo,
E babo,
Entre as fissuras do lábio.








Supérfluo

Seus passos se aproximam no eco dos latidos.
O que está na ponta de minhas narinas
Que me faz respirar pelas orelhas?
Pensamentos: filamentos de fumaça
Dissolvidos na espacidão do cosmo.
Olhar vesgo que engendra múltiplas realidades.
Sorriso que escarra os dentes.
Boca murcha de pá lá vras.
Boca cheia de larvas.
Cuspindo vermes.
Sabor das entranhas nas gotículas.
Das ridículas
Guilhotinas da alma.




SECREÇÃO

Espremidos pela noite que nos desemboca nas fissuras eternas do universo,
Apalpando com os fios de cabelo as assombrações do inverno,
Queimamos na fogueira dos desejos nossos sonetos frios e sonâmbulos,
E através da fumaça dos sonhos, alcançamos nas epidermes incendiadas
O encontro flutuante das almas enigmáticas.
Desvelado o cardume do que agora escorre de nós,
Permeio o bálsamo fresco que com a língua capturamos,
Garatuja o vento que nos arranha os pensamentos.
Rasteja o temor que nos envenena os corpos mordidos,
E a noite, então, passa a ser apenas um lençol escuro,
Sobre o qual adormecem nossas ardências soturnas, 
E nossos tropeços perdidos.



quinta-feira

ENQUANTO ISSO

O espesso véu de neblina que se estende sobre a rua e as coisas,
que não vejo.
Encobre os passos dos pensamentos que soturnos correm,
e não escuto.
As sombras das casas desenham nas calçadas os submundos,
que não sinto.
Enlaça com a neblina a fragrância dos meios fios,
que não cheiro.
A noite vibra misteriosa e fria no fora,
que não entro.
E dentro o dia arde nas cortinas do quarto
e eu saio.


quarta-feira

PONTILHADO

Deslizam as vozes suadas pelas gargantas dos dedos
Gritantes, ventosas dos lábios estilhaçando molduras
Caricatas, emersão de pelos borbulhando na espinha
Efusiva, cratera de delírios, de lírios, de rios.

Ponta de passo, no meio do braço, abraço
E passo.
Na beira das pernas laço um calço 
E alço.

Subo e sumo

Derreto e desço

Afogo no fogo e morro.